segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Até que Ponto um Cristão Deve se Envolver com o Sistema Político do País?

Votar ou não votar, não é essa a
questão; afinal, votando ou não,
você tem o dever de ser um bom
cidadão e o direito de fazer valer
aquilo que é obrigação do
Estado. A questão maior que
envolve os cristãos é qual deve
ser sua postura, ou seja, o seu
grau de envolvimento com o
sistema político.
    “Sou de esquerda[1] porque o Evangelho é liberdade!”; “Sou de direita[2] porque a Bíblia é conservadora!”; “Sou governista porque a Palavra ensina que devemos respeitar as autoridades!”; “Sou oposição porque Cristo disse que esse mundo jaz no maligno!”; “Sou neutro porque sou cidadão dos céus!”. Quem nunca ouviu e também nunca repetiu alguma - ou algumas - dessas frases? O poder e a influência política estão cada vez mais presentes na vida dos cristãos, tendo chegado ao ponto de interferir diretamente na Igreja... Ou é a Igreja que está interferindo na política? Políticos nos púlpitos e pastores nos palanques; indução de líderes ministeriais em relação aos votos dos fiéis e participação aberta dos crentes na implantação de leis. No exercício do sufrágio[3], até que ponto devemos ou podemos nos envolver nas questões do Estado, considerando-se que, como cristãos, somos peregrinos[4] na terra (Sl 119:19)? Façamos então uma imparcial análise bíblica para chegarmos a uma conclusão racional - e espiritual - sobre liberdade, conservadorismo, obediência, oposição e neutralidade do cidadão evangélico em relação ao poder público considerando também que a legitimidade da organização política é reconhecida por Deus desde o início (Êx 20:1-17; Dt 16:18-20) e praticada por Jesus (Mt 22:17-21).
    Uma das maiores preocupações em relação ao cenário político é o desrespeito ou mesmo a destruição dos valores da família tradicional, em nome de uma liberdade que desvaloriza totalmente tudo aquilo o que os princípios cristãos ensinam. Dentro desse panorama, há também evangélicos que que acreditam ser radicalismo religioso se opor a isso, pois o avanço cultural e social pede mudança de postura e o cenário atual nada tem a ver com a situação dos tempos bíblicos. Em partes, é mesmo necessário que se compreenda a questão das mudanças em relação a tempos e lugares, porém, algo de maior importância a se considerar é o fato de que Deus não mudou, o que significa que, embora em situações diferentes, seus princípios não mudaram (Tg 1:16,17; Hb 13:8). O liberalismo excessivo propõe o apoio às leis que defendam atos como, por exemplo, o aborto, o “casamento” de pessoas do mesmo sexo e o feminismo. É errado isso? Se para você não houver nada demais em interromper uma vida antes mesmo dela nascer (Êx 21:22,23; Sl 139:16; 1ª Co 3:16,17), assim também como a união conjugal entre dois homens e duas mulheres (Gn 2:18-24; Lv 18:22; 20:13; Rm 1:26,27; 1ª Co 6:9-11; 1ª Tm 4:3), e ainda o domínio da mulher em questões que, por natureza, competem ao homem (Gn 2:22,23; 1ª Tm 2:11-13; 1ª Co 11:8,9; Ef 5:22-24; Cl 3:18; Tt 2:3-5; 1ª Pe 3:1-5), então não há nada de errado não; é só extremismo religioso mesmo (2ª Tm 4:3). Uma das características desse grupo é o comunismo[5]; Cristo era comunista (Lc 12:14,15)? Você já parou pra pensar no que realmente consiste a liberdade em Cristo (Rm 6:22,23)?
    Outro grupo que muito preocupa é o que defende radicalmente o conservadorismo. Estes são defensores intolerantes dos direitos tradicionais que propõem a defesa dos valores - ou do que eles consideram como valores - tradicionais a todo custo. Qual é o problema disso? Estes costumam defender medidas extremas como, por exemplo, a pena de morte, a liberação de armas de fogo para a população e o autoritarismo, isso além de não respeitarem grupos minoritários (homossexuais, presidiários, religiosos não-cristãos, estrangeiros, etc.); e pensam que Direitos Humanos é defesa de bandidos. Mas isso é problema? A Quem pertence o direito à vida (Gn 2:7; Ec 12:7)? E o que a Bíblia quer dizer quando fala sobre perdoar os inimigos e a acepção de pessoas (Mt 5:43-47; Tg 2:8,9[6])? Sim! A Bíblia fala mesmo sobre a espada da lei que justamente fere os que desobedecem, mas isso é uma carta branca para que julguemos e determinemos a morte de alguém (Mt 26:52; Rm 13:1-6[7]; Rm 12:18-21)? Defendem também o individualismo - o contrário do comunismo -; Cristo era individualista (Lc 9:12-17)? O extremismo na defesa de direitos individuais demonstra, na prática, ser tão perigoso quanto a criminalidade em si (Pr 28:16; Ez 22:12).
    Outro problema muito sério do cristão-cidadão em relação à política é a prática do governismo, ou seja, a defesa do governo sem considerar se ele está governando de acordo com os princípios que possam ser tolerados pelo cristianismo ou não. São pessoas do tipo: “Não critique, não reclame, não questione, não fale porque rebelião é pecado!” De fato, as Sagradas Escrituras nos ensinam que devemos ser obedientes às autoridades (1ª Pe 2:13); porém, nos alertam também que não podemos compactuar com aquilo que venha a ferir os princípios sagrados determinados por Deus (Tg 1:27), dentre os quais está incluída a luta contra a corrupção, o que envolve a defesa da prática da honestidade (2ª Co 8:21; Fp 4:8; 1ª Pe 2:11,12), do combate à pobreza (At 6:1-3; 1ª Tm 6:17-19), da luta pela decência moral (Tt 2:7,8), da acessibilidade à educação (Pr 1:2-6), enfim, do exercício dos direitos iguais (Ec 5:9-11). Obedecer ao homem é necessário, desde que suas leis não desrespeitem às leis divinas (At 5:28,29).
    Outro perigo é o oposicionismo. Defender as leis divinas não significa tentar se isolar como se não vivêssemos nesse mundo (Jo 17:15,16); afinal, nossa “cidadania cristã” (Fp 3:20) não nos torna seres sobrenaturais, mas apenas pessoas comuns que creem e vivem o sobrenatural (Fp 3:21; Lc 10:17-20). O pensamento oposicionista tende a tornar o cristão uma pessoa insociável[8] que vê o pecado - ou o Diabo - em tudo e não consegue diferenciar entre o certo e o errado sem generalizar cada situação. É daí que nascem várias teorias conspiratórias[9], as quais, quase que generalizadamente, se resumem em pregar a existência do paganismo[10] em todas as ações dos governos ou pessoas e empresas ligadas à ele. Mas, qual é o problema nisso? O grande problema nisso é que em vez de simplesmente ajudar a alertar a população contra a corrupção governamental, acaba é incitando o povo contra as autoridades por meio da criação de revolta e pânico, podendo gerar protestos que por muitas vezes terminam em atos violentos: verdadeiros atos de rebelião. Assim sendo, devemos então concordar com o “domínio maligno do poder”? Obviamente que não! Porém, essa é uma luta que começa no campo espiritual (Ef 6:11,12) e é travada a nível individual (Ef 6:13), pois se o mundo jaz no maligno (1ª Jo 5:19), o que podemos fazer é viver cada um com sua fé buscando para si próprio uma vida tranquila em meio à tanta turbulência (1ª Jo 5:8,9); é claro que temos que pregar a paz, mas fazemos isso tendo consciência de que nem todos darão ouvidos à voz de Deus (2ª Tm 3:1-5).
    É também comum nos depararmos com o grupo “Tanto fez, tanto faz! Minha participação não vai mudar nada mesmo!”. O neutralismo demonstra, na prática, um conformismo com tudo, o qual faz a pessoa achar que não pode ou não deve interferir em nada porque essa é a vontade de Deus; mas a Bíblia ensina o contrário, né? Pois, mesmo não aprovando, Ele permite que o homem faça escolhas (1º Sm 8:4-10,17-20). Não há, logicamente, a necessidade de nos engajarmos em causas políticas e fazer disso a nossa razão de viver, mas isso também não significa que devamos cruzar os braços e fingir que não estamos vendo nada. As Escrituras são claras ao afirmar que a omissão é um pecado (Tg 4:17). Isso significa que enquanto vivemos aqui somos parte desse mundo e devemos sim de alguma maneira tentar torna-lo um lugar melhor para se viver. Afinal, quem é capaz de ficar num ambiente sujo sem pelo menos pegar uma flanela e tirar nem que seja o pozinho do lugar aonde está sentado? O envolvimento possui vários níveis ou dimensões, mas é impossível a um ser humano em seu perfeito juízo não se envolver socialmente, mesmo que seja contribuindo simplesmente com suas opiniões, fazendo críticas ou comentários que, ao ser ver, sejam construtivas para a melhoria do ambiente em que vive. Se envolver socialmente é também uma forma de amar ao próximo (Lv 23:22). Certamente que confiar no homem não é tarefa fácil, mas precisamos avaliar, discernir e julgar (1ª Ts 5:21; Mt 7:16,17).
    Socialmente falando, o cristão possui uma missão a cumprir, a qual não o permite excluir-se politicamente. O que se deve é ter um grande cuidado para não tornar-se adepto ao partidarismo[11], pois nosso compromisso não é com partido e nem com seus representantes, mas com a verdade. Quando votamos ou nos candidatamos, assumimos compromisso com toda a sociedade, mediante à prática dos valores ensinados pela Palavra de Deus (Mt 5:16), cuidando para que devidamente se exerça nossos direitos garantidos pelo Estado Laico[12]. Religião e política sempre caminharam lado a lado desde o princípio, pois quando o povo israelita passou a peregrinar pelo deserto, Ele estabeleceu regras de convívio social e, ao longo da história, muitas são as passagens bíblicas que mostram profetas nos palácios orientando os reis (2º Rs 3:10-12; Jr 37:3,4); o próprio Jesus expressou sua insatisfação sobre a liderança política que o perseguia (Lc 13:31,32[13] [14]). É claro que isso também tem o seu lado negativo, pois essa mistura também tem sido a razão de vários conflitos e morte, mas isso é culpa do próprio ser humano ao usar o nome de Deus em sua ganância por poder. Nesse caso há a necessidade de se usar a política para se combater os maus políticos, e isso se dá por meio da prévia análise antes de ceder seu voto ou apoio e filiação a determinado partido ou candidato. O mito de que todo político é ladrão é falso, totalmente discriminatório, pois há sim ainda pessoas bem intencionadas que não se deixaram contaminar pela podridão do sistema. De fato é sim muito difícil saber quem é quem, mas como verdadeiros crentes temos a obrigação de seguir a regra mais básica na escolha política: discernimento espiritual e racional - oração e análise bíblica dos projetos -. Outro ponto importante a se observar aí é a questão perigo da transformação de púlpitos e palanques e vice-versa, pois nessa mistura muitos se deixam enganar, e vários líderes ministeriais acabam cometendo um erro gravíssimo: a imposição do voto de cabresto[15], assim transformando os fiéis em meros objetos para a eleição de seus candidatos, classificando-os como rebeldes se assim não os obedecerem; mas a Bíblia também fala sobre esse tipo de atitude (2ª Pe 2:3). Concluindo, não importa qual seja seu nível de envolvimento político, mas faça isso com a consciência limpa estando ciente de que está fazendo - ou tentando fazer - o que é melhor para a Igreja, a sociedade, a sua família e a si próprio. Fazendo o bem ao próximo, o estamos fazendo ao próprio Deus (Mt 25:35-45). E o principal de tudo é: confiemos primeiramente em Deus e não no homem (Nm 23:19; Sl 20:7).


[1]Esquerda: Politicamente falando, esse termo foi criado durante a Revolução Francesa (1789 - 1799), referindo-se ao lado do parlamento em que os políticos se sentavam. À esquerda se sentavam aqueles que defendiam uma maior igualdade social: aqueles que representavam as classes menos favorecidas.
[2]Direita: Politicamente falando, esse termo foi criado durante a Revolução Francesa (1789 - 1799), referindo-se ao lado do parlamento em que os políticos se sentavam. À direita se sentavam aqueles que defendiam direitos mais favoráveis à elite social ou interesses individuais.
[3]Sufrágio: Processo de escolha por votação; Eleição. Voto em uma eleição.
[4]Peregrino: Aquele que peregrina. O que empreende longas viagens, ficando em vários lugares por determinado período de tempo sem poder ser considerado morador dos mesmos.
[5]Comunismo: Do latim communis (comum, universal), sua característica é uma ideologia política e socioeconômica, que visa estabelecer uma sociedade igualitária em que não haja classes sociais diferenciadas, que seja apátrida (sem nacionalidade), baseada na propriedade comum dos meios de produção.
[6]Redarguido: Repreendido, replicado, respondido.
[7]Magistrado: Autoridade pública.
[8]Insociável: O que foge ao convívio social; misantropo, solitário, retraído. De difícil convivência; intratável, incômodo, importuno.
[9]Teoria Conspiratória: Teoria da conspiração se refere à forma de se entender ou se explicar qualquer coisa, tendo como "certeza" o fato de que sua origem é secreta e parte de um plano conspiratório. Essas teorias são uma tentativa de explicar algo que não tenha explicação, ou argumentar que a explicação oficialmente declarada não condiz com a verdade.
[10]Paganismo: Conjunto dos não batizados; gentilidade, gentilismo. Religião em que se cultuam muitos deuses; etnicismo, gentilidade, gentilismo, politeísmo.
[11]Partidarismo: Fanatismo partidário; facciosismo político. Aquele que defende a bandeira de um partido ou um representante político em vez situações em particular.
[12]Laico: Secularidade; secular. Que não tem religião definida; sem religião. É um conceito que denota a ausência de envolvimento religioso em assuntos governamentais.
[13]Fariseus: Em hebraico significa “separados”. Judeus devotos ao Pentateuco. Participavam das reuniões legislativas da sinagoga. Formavam um grupo de fanáticos e hipócritas (o que não era o caso de todos, pois haviam exceções, como era o caso de Gamaliel que defendeu os apóstolos que estavam presos por pregarem a Palavra (At 5:34-38)) que se opuseram duramente contra Jesus Cristo. Segundo a história, nessa época, eles eram aproximadamente 6 mil pessoas.
[14]Herodes: Nome comum de vários reis Idumeus que governaram a Palestina de 37 a.C. até 70 dC. 1- Herodes, o Grande (37 a 4 a.C.), construiu Cesaréia, reconstruiu o Templo e mandou matar as criancinhas em Belém (Mt 2:1-18). Quando morreu, o seu reino foi dividido entre os seus três filhos: Arquelau, Antipas e Filipe. 2- Arquelau governou a Judéia, Samaria e Iduméia de 4 a.C. a 6 d.C. (Mt 2:22). 3- Herodes Antipas governou a Galiléia e a Peréia de 4 a.C. a 39 d.C. Foi ele quem mandou matar João Batista (Mt 14:1-12). Jesus o chamou de "raposa" (Lc 13:32). 4- Filipe, Tetrarca (rei que governava a quarta parte de um reino) que governou bem, de 4 aC. a 34 d.C., a região que ficava a nordeste do lago da Galiléia, isto é, Ituréia, Gaulanites, Batanéia, Traconites e Auranites (Lc 3:1). 5-Herodes Agripa I governou, de 41 a 44 d.C., toda a Palestina, como havia feito Herodes, o Grande, seu avô. Esse Agripa mandou matar Tiago (At 12:1-23). 6- Herodes Agripa II governou o mesmo território que Filipe havia governado (50-70 d.C.). Paulo compareceu perante esse Agripa (At 25:13-26:32).
[15]Voto de Cabresto: Sistema tradicional de controle de poder político através do abuso de autoridade, compra de votos ou utilização da máquina pública. Prática muito comum nos meios mais pobres. Nas igrejas, as vezes é praticado por alguns pastores que coagem seus membros a votarem em determinados candidatos, alegando que os que assim não fizerem estão em desobediência; dessa forma, chegam até mesmo a proibir que fiéis que não tenham sido escolhidos pela administração ministerial se candidatem a cargos políticos para não atrapalharem seus representantes.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Afinal, a Salvação Nos Alcança ou Ela é Por Nós Alcançada?

Em meio a tantas brigas sobre
qual é a interpretação mais
correta em relação à doutrina
da salvação, muitos se
esquecem do mais importante:
brigar contra o pecado porque
ele é quem pode nos impedir
de sermos salvos.
    A maior disputa que envolve a doutrina da salvação é, de um lado, a existência de teólogos que dizem que ela é predestinada e, de outro lado, os que dizem que ela é conquistada. Segundo a teoria do primeiro grupo, cada pessoa já nasce com seu destino traçado por Deus e nada que ela fizer pode mudar isso, e de acordo com a interpretação do segundo grupo, o que a Bíblia fala sobre predestinação é coletivo e não individual, e o homem é responsável por seu destino final. Com o objetivo de esclarecer isso biblicamente, vou comentar aqui alguns dos textos bíblicos mais usados em torno desse assunto.

Êxodo 9:12 - “Porém o Senhor endureceu o coração de Faraó, e não os ouviu, como o Senhor tinha dito a Moisés.”
    Numa rápida leitura, sem conhecimento da história, parece ser injusta essa dura decisão de endurecer o coração de Faraó, a qual se repete por mais duas vezes (Êx 10:20; 10:27); e isso tem sido um “prato cheio” para alimentar os argumentos dos que defendem a soberania predeterminante de Deus. Porém, numa análise minuciosa dos fatos, podemos entender que, embora houvesse sim um propósito divino para o uso de Faraó para libertar seu povo da escravidão no Egito, isso não significa que ele estivesse previamente destinado à morte e a condenação. Nos capítulos anteriores podemos ver claramente que o próprio Faraó - e não Deus - havia endurecido seu coração por não querer libertar os israelitas (Êx 7:13; 7:22; 8:15; 8:19); o fato de ser usada a expressão “como o Senhor tinha dito” não é uma prova de que Ele tenha provocado esse endurecimento, mas significa apenas que o previu por sua presciência[1]. Assim vemos que, além da libertação dos hebreus[2], o propósito de Jeová era mostrar à Faraó e aos egípcios que não existe outro Deus além dEle; as dez pragas simbolizam falsos deuses que eles veneravam. Faraó já havia ouvido falar sobre Deus e testemunhado o seu poder através de Moisés; dessa maneira, quando ele teve seu coração endurecido pelo Todo-Poderoso nas pragas finais, isso foi somente a aplicação da justiça divina contra alguém que teve oportunidade e não se arrependeu. Seu fim foi decretado por ele próprio como recompensa de seu pecado, ou seja, uma merecida punição contra alguém que negou-se ao arrependimento por algumas vezes e, a partir daí, não mais alcançou misericórdia (Rm 9:17,18); e isso não por vontade de Jeová, o qual teve misericórdia até onde julgou justa tal oportunidade. E essa consequência também se deu sobre aqueles que o seguiram e não se rebelaram contra ele.
    Ser usado pelo Senhor para um propósito bom ou ruim é algo que todos nós estamos sujeitos; mas não é isso que decreta o destino de nossa alma e sim a maneira como reagimos a isso (Mt 27:3-5; Lc 22:61,62). De igual modo, podemos sim ter mais ou menos oportunidades de arrependimento do que algumas pessoas; isso é fato incontestável que vemos no dia-a-dia, mas esse “nível de misericórdia individual” - se assim podemos chamar - apenas revela o quanto, aqueles que estão vivendo em pecado, se tornam cada vez mais responsáveis pelos seus erros e justamente sujeitos a receberem seu salário pelas más obras que praticam (Rm 6:22,23).

Jeremias 1:5 - “Antes que eu te formasse no ventre, eu te conheci; e, antes que saísses da madre, te santifiquei e às nações te dei por profeta.”
    Esse é outro ponto bastante argumentado pelos que creem na predestinação da salvação. Não é raro ouvir alguém dizer que os salvos são escolhidos desde o ventre de sua mãe. Porém, basta apenas uma atenção maior ao texto para se observar que essa formação de Jeremias no ventre materno, seguida da santificação não se refere à salvação, mas sim à sua missão como profeta. Não estou dizendo que Jeremias não foi salvo, no entanto, não é esse texto que pode garantir isso.
    Ser escolhido por Deus para determinada obra não significa ter sido desde o princípio separado para a salvação, pois muitos foram tremendamente usados por Ele, mas, devido aos seus próprios erros, não herdarão o Reino dos Céus (Mt 7:21-23; 25:11,12). Inclusive, ser chamado não garante nem mesmo que a pessoa lhe obedecerá cumprindo sua vontade (Jn 1:1-3; 4:1,9-11; Hb 11:38,39), o que também não significa necessariamente que tenham sido salvos ou não.

Jeremias: 24:7 - “E dar-lhes-ei coração para que me conheçam, porque eu sou o Senhor; e ser-me-ão por povo, e eu lhes serei por Deus, porque se converterão a mim de todo o seu coração.”
    Assim como em outras passagens (Ez 11:19,20; 36:26,27), esse texto não expressa uma mudança de sentimentos e atitudes forçada por Deus, mas sim de sua misericordiosa ação transformadora mediante o arrependimento do povo de Israel: “se converterão a mim de todo o seu coração”; o que define a diferença entre salvação e condenação (Jr 24:8-10; Ez 11:20,21; Ez 36:7,19; Ez 36:30-32). Em uma nação tão grande havia pessoas boas e más, porém, na hora do castigo, pessoas boas e pessoas más sofriam as consequências, da mesma forma que algumas pessoas boas e algumas pessoas más eram poupadas. No intuito de salvar os inocentes e também de resgatar os pecadores (Jr 24:1-6; Ez 11:15-18), a imensa graça divina era - e é - estendida à todos.
    Mudar o coração do homem não consiste numa obra forçada da parte de Deus, pois isso contrariaria sua própria promessa de trata-lo segunda suas ações boas ou más (Dt 8:18,19); tal ato divino, na verdade, significa conceder ao homem uma oportunidade de arrependimento, por meio da qual ele será condenado ou justificado (Tt 2:11-14).

Lucas 14:23 - “E disse o senhor ao servo: Sai pelos caminhos e atalhos e força-os a entrar, para que a minha casa se encha.”
    Nessa parábola[3] onde o rei representa o próprio Deus, referindo-se sobre a ordem dada para que evangelizemos, tem um sentido figurativo bastante amplo e refere-se primeiramente à desobediência do povo de Israel, o qual conscientemente recusou o chamado divino por meio da desobediência, e assim o Senhor executou seu plano de salvação sobre os gentios. Mas a questão que quero focar aqui é a expressão “força-os a entrar”.
    Na verdade, o termo hebraico aqui usado foi pâtsar (פָּצַר), o que expressa constranger, instar ou rogar; mas foi equivocadamente escrito em grego como anagkazo, que significa forçar ou obrigar. Então, se trata simplesmente de um erro de tradução, pois a ordem dada foi mesmo para que se convidasse de forma insistente as pessoas para que entrassem.

João 6:37a - “Todo o que o Pai me dá virá a mim”
    Essa declaração de Jesus tem confundido a mente de muitos, os quais não entendem em que sentido Ele estava falando. Analisando superficialmente dá a impressão que Deus escolheu alguns e os deu ao seu Filho, porém numa análise mais aprofundada pode-se notar que não há nenhum ponto que indique favorecimento do Pai ao eleger alguém, pois, por exemplo, um pouco adiante está escrito que todo aquele que   [que tem conhecimento ou que ouve falar sobre seu sacrifício de salvação] o Filho e crê [que o obedece] nEle tem a vida eterna (Jo 6:40). Mais à frente diz que ninguém pode ir à Cristo sem ser levado pelo Pai (Jo 6:44), e reforça a ideia de que é necessário ouvir para crer (Jo 6:45). Aqui podemos observar dois detalhes: primeiro, Jesus estava defendendo sua identidade como Salvador diante de incrédulos que não o reconheciam como o Messias (Jo 6:36,41,42,64) e, segundo, que aqueles que o receberam podiam confiar que não seriam rejeitados pois Ele estava incumbido de completar a Obra de Deus (Jo 6:28,29,38), sendo o Pão da Vida que os sustentaria espiritualmente (Jo 6:30-35).
    Concluindo, ser dado por Deus à Jesus significa que Deus enviou sua Palavra acerca de seu Filho e quem creu e recebeu não será lançado fora, ou seja, Deus nos concede oportunidade permitindo-nos ouvir sua Palavra (Hb 1:1; 8:10-13), no entanto, obedecer ou não é responsabilidade de quem ouve (Jo 5:38-43).

João 15: 16a - “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça”
    O contexto básico desse texto consiste em mostrar a soberania divina sobre a fragilidade humana (Jo 15:4,5). De fato, se Ele nos criou e nos sustenta, não há como dizer que optamos por isso, pois foi Ele quem nos deu vida (Jo 15:1). O problema é que muitos cristãos usam dessa afirmação como base para dizer que a salvação é previamente decidida por Deus, mas o próprio texto mostra o fator condicional, o qual coloca o próprio homem em condição de decidir se obedece ou não a vontade divina, através de expressões como: “se guardardes os meus mandamentos” e “se fizerdes o que eu vos mando” (Jo 15:10,14).
    A escolha do Senhor a nível pessoal se refere a um chamado - vos nomeei - para o trabalho em sua Obra - vades e deis fruto - seguido de constante obediência - o vosso fruto permaneça -. Há chamados que são para missões específicas, só que isso não inclui salvação, pois no que se refere ao destino da alma, prevalece a responsabilidade pessoal quanto à decisão de se manter ou não dentro da promessa do chamado coletivo feito à Igreja (Jo 15:6,7) .

Atos 13:48b - “E creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna.”
    Esse termo “todos quantos estavam ordenados” não representa um grupo específico de pessoas escolhidas para a salvação, mas sim todos aqueles que ouviram e aceitaram a Palavra do Senhor, assim decidindo viver de acordo com a sua vontade. A prova disso é que nesse mesmo texto, Paulo e Barnabé pregavam aos opositores do Evangelho, dizendo: “visto que a rejeitais [a Palavra de Deus], e não vos julgais dignos da Vida Eterna” (At 13:46); como podemos observar de forma clara, os judeus que se opuseram ao cristianismo rejeitaram por si próprios tendo-se como indignos da Vida Eterna, ou seja, não estavam predestinados à condenação, eles mesmos se condenaram.
    Da mesma forma, os novos convertidos não receberam a Palavra da salvação de forma pessoal por uma ordenação divina dispensada exclusivamente à eles, mas sim porque ela está ordenada àqueles que ouvirem, crerem e obedecerem a ela (Jo 13:15; Rm 1:16; 10:9-12; Ap 22:17). Resumindo, quando receberam a Palavra, os gentios em questão passaram a fazer parte daqueles que estão ordenados a fazer parte da vida eterna, ou seja, passaram a pertencer ao grupo em que cada indivíduo, se permanecer fiel até o fim alcançará a salvação.

Romanos 8:28b - "Daqueles que são chamados por seu decreto."
    A grande pergunta é: “Que decreto é esse?”; a resposta exige atenção ao sentido do texto. Traduzindo, essa palavra significa propósito ou plano. Esse versículo fala sobre bênçãos destinadas àqueles que amam a Deus, o que significa que o amor ao Todo-Poderoso é a condição para se recebe-las; em seguida, menciona também um chamado, chamado esse que não expressa uma imposição e sim um convite. Em sua continuação, o texto fala sobre predestinação, menciona novamente o chamado e cita o termo “escolhidos” (Rm 8:29,30,33); tais menções, no entanto, não confirmam um favoritismo quanto aos que serão salvos, mas se trata, na verdade, de uma referência à Igreja e não de alguns membros em particular. Não há nada aqui que prove o contrário.
    Bênçãos de Deus, sejam a nível material ou espiritual, primeiramente dependem do propósito divino, ou seja, têm que estar de acordo com a vontade dEle; em segundo lugar, o homem, para recebe-las precisa estar em obediência, o que implica, de acordo com o texto, em amar a Deus: quem ama obedece. Isso significa que para sermos vencedores dependemos dEle (Rm 8:31,37), e que quando reconhecemos essa dependência, não permitimos que nada nos separe do seu amor (Rm 8:38,39).

Romanos 9:13 - “Amei Jacó e aborreci Esaú.”
    O que mais se ouve em relação a escolhas é: “Deus é Deus e faz como Ele quer!”; de fato, não há como questionar esse argumento. Entretanto, faz-se necessário lembrar que por ser Deus, não pode Ele negar seus princípios mais básicos que são a santidade, a verdade e a justiça (Lv 19:2; Nm 23:19; Sl 92:15). Assim sendo, seu amor por Jacó e aborrecimento por Esaú não pode de maneira alguma incorrer na condenação de um e salvação do outro.
    O que entendemos aí é que Ele se refere a um propósito relacionado aos seus descendentes. Antes mesmo de nascerem, houve uma promessa de Deus que disse o maior seria servo do menor; ironia ou não, eles lutavam dentro do ventre assim representando a existência de duas futuras nações rivais. O fato de um ser maior que o outro já era uma simbologia de que um povo seria mais forte que o outro (Gn 25:22-28). A expressão “amei” não representa propriamente o sentimento de Deus a nível pessoal, mas sim em relação a essas nações que deles sairiam, pois de Jacó saiu a linhagem dos fiéis (os israelitas) e de Esaú a linhagem dos rebeldes (os edomitas[4]). Dessa forma, pode-se entender que o amor de Deus é em relação às atitudes desses povos e não necessariamente de Jacó e Esaú como pessoas. Por essa razão, não se deve confundir propósitos específicos com destinação à eternidade.

Romanos 9:15,16: “Compadecer-me-ei de quem me compadecer e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. 16Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece.”
    Continuando a mesma questão sobre Jacó e Esaú, aqui o apóstolo Paulo cita o que Deus já havia falado à Moisés (Êx 33:19) e, em seguida, compara o homem ao barro nas mãos do Oleiro para dizer que não há como se opor à soberania divina (Rm 9:20,21). Em ambas afirmações, ele nada mais está fazendo do que mostrar que a misericórdia tem um limite, e que para uns Ele pode conceder mais oportunidades de arrependimento do que para outros; tal decisão diante de pecadores obstinados é um direito dEle, porém isso não significa que tais pecadores não tiveram chance alguma de arrependimento e consequente salvação.
    Sim. O homem resiste sim à vontade de Deus (At 7:51; Êx 32:9), mas não prevalece (Rm 9:19), e por sua própria desobediência - e não por determinação divina - provocam a sua própria condenação (Rm 9:22), ou por arrependimento e obediência alcançam a Graça da salvação (Rm 9:23). O propósito maior em tudo isso é a abertura de uma chance de salvação aos gentios, os que não faziam parte da promessa em si por não serem judeus (Rm 9:8-11,24-27); e isso é por meio da fé através da pregação da Palavra e não por imposição (Rm 9:30-32). Concluindo esse ponto, a expressão “não depende de quem quer, nem de quem corre, mas da compaixão divina”, significa que não são os esforços humanos que nos fazem merecedores da Vida Eterna, mas sim que isso depende da misericórdia do Senhor da nossa vida, o qual conhece nosso interior e sabe se reconhecemos seu sacrifício e se temos fé nEle ou não; com exceção disso, obra alguma, por melhor que seja, poderá nos salvar.

Efésios 1:4a - “nos elegeu nele antes da fundação do mundo”
    Mais uma vez estamos diante de um texto que fala em sentido coletivo e não individual. Essa eleição se refere à Igreja e não a alguns crentes em particular. A situação em questão trata de reconhecer que nós - Igreja e não indivíduo - fomos escolhidos para fazer parte de um povo santo e irrepreensíveis em suas atitudes (Ef 1:4b).
    No versículo seguinte, fala sobre o fato de os santos - os crentes, a Igreja - terem sido predestinados como filhos adotivos por meio de Jesus Cristo (Ef 1:5); novamente, não vemos aí nenhuma prova de que a eleição para a salvação, ou para a condenação, seja uma determinação divina feita a cada indivíduo sem razão de obediência ou pecado do mesmo. Da mesma se forma se seguem as declarações seguintes (Ef 1:9,11), as quais apenas visam mostrar que somos salvos mediante ao reconhecimento do sacrifício de Cristo, para a glória de Deus (Ef 6,7,10), por meio da pregação da Palavra (Ef 6:13,14).

Efésios 2:8 - “Pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus. 9Não vem das obras, para que ninguém se glorie.”
    Graça, fé e obras; entender o significado dessas palavras tem sido um grande problema para os que acham que nada precisam fazer em relação à sua própria vida espiritual porque tudo já estaria determinado por Deus.
    Não é preciso muito para entender que Graça é um favor imerecido, algo nos dado sem que tivéssemos merecimento ou capacidade para alcançar. No entanto, o fato de ganharmos um presente não significa que venhamos a usá-lo e nem tampouco que quem nos deu nos obrigue a isso (Dt 9:16; Sl 81:8; Pr 1:24-31; Jr 6:16,17; Jr 11:7,8; Ml 2:8; Ml 3:7; Mt 23:37). Quanto à fé, sim, ela nos é gerada pelo Espírito Santo. Porém, ela não consiste apenas em crer, mas também em obedecer. Dizer que acredita em Cristo não torna ninguém um Cristão, mas o desejo de ter uma vida transformada nos moldes do cristianismo, isso sim nos torna seus seguidores; e essa obra transformadora provém de Deus, mas deseja-la e pedi-la à Ele é uma decisão nossa (Mc 8:34,35; Lc 14:27,33; Lc 13:23-27). Em relação às obras, obviamente, nada podemos fazer, afinal, quem conseguiria pagar ao Senhor ou comprar dEle a salvação? Diante de sua imensa grandeza, somos apenas pequenas crianças iludidas vendo o pai pegar um pacote pesado e tentando ajuda-lo segurando apenas na ponta da embalagem, cheios de orgulho achando que realmente estamos ajudando, enquanto ele sorri balançando a cabeça negativamente. O que somos nós diante de Deus? Mas a questão é que o Pai vai nos alimentando e ensinando dia após dia, até que, pela Graça dEle, podemos fazer alguma coisa. E aí sim, com a chegada da maturidade, decidimos se, por meio dessa força e condição intelectual, seguiremos seus bons exemplos ou seremos rebeldes, assim conquistando os benefícios das boas atitudes ou o castigo pelas maldades (Mc 8:36,37; Fp 1:6; Rm 14:12; 2ª Co 5:10; Ap 20:12,13).

    Como vimos, a Graça do Senhor nos alcança e permanece à nossa disposição para que dela usufruamos; porém, por seguirmos nossa natureza pecaminosa, podemos sim impedir a nós mesmos de alcançar a própria salvação.

O livre-arbítrio
    O profeta Jonas recebeu uma ordem direta de Deus e decidiu desobedece-la, mas quando as coisas se apertaram e ele se viu no fundo do mar dentro de um peixe, reconheceu a necessidade de arrependimento e clamou por misericórdia, alcançando-a (Jn 2:7); ele poderia ter desanimado e morrido. Certamente Jeová poderia enviar qualquer outro em seu lugar e as consequências de seus atos cairiam sobre ele; assim sendo, não há como pensar que ele foi obrigado a ir à Nínive. Ele simplesmente optou por não morrer em pecado, pois a desobediência traz consequências negativas.
    Uma das provas maiores da existência do livre-arbítrio humano está no estabelecimento da Lei, onde a ordem, claramente, foi: “Escolhe pois a vida” (Dt 30:15-20). Ele colocou como proposta diante do povo a vida e o bem em oposição à morte e o mal, aconselhando-o que fosse obediente à sua Palavra como fator condicional para serem abençoados. Nessa ocasião, relatou também que uma série de coisas negativas aconteceriam se eles não fossem obedientes, fazendo uso da expressão “se o teu coração se desviar, e não quiseres dar ouvidos”. O próprio Senhor Jesus se expressou dessa forma: “Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina, conhecerá se ela é de Deus ou se eu falo de mim mesmo” (Jo 7:17).

A perda da salvação
    Sempre nos deparamos com aquele argumento de que salvação não se perde, mas a Bíblia mostra o contrário: “Sejam riscados do livro da vida e não sejam inscritos com os justos” (Sl 69:28). Outros textos também confirmam isso; falando à Igreja de Sardes, por exemplo, o Senhor, referindo-se àquele que vencesse aos pecados desse  mundo, disse que de maneira nenhuma riscaria seu nome do livro da vida (Ap 3:5). Ora, se existe a promessa de não riscar do livro da vida o nome daquele que permanecer fiel, é porque existe de fato a possibilidade de aquele que está com o nome lá, tê-lo retirado por sua desobediência sem arrependimento (Ap 3:2,3).

A Graça resistível
    Falando sobre eleição, o apóstolo Pedro manda que os eleitos fiquem cada vez mais firmes (2ª Pe 1:10,11). Mas como assim se já está tudo determinado e não se pode resistir à Graça? Contraditória essa teoria da resistibilidade, não é mesmo? Se fosse assim, não seria necessária a preocupação em exortar os incrédulos a se converterem e os crentes a permanecerem crentes (1ª Ts 4:7,8; Tt 2:11-14; Hb 12:14; Ap 2:10); seria só deixar cada um por si e tudo iria acontecer naturalmente. Mas a Bíblia nos alerta que é sim possível errar o caminho (Is 35:8). As Escrituras sagradas falam claramente sobre essa nossa responsabilidade espiritual: “que entesourem para si mesmos um bom fundamento para o futuro, para que possam alcançar a vida eterna” (1ª Tm 6:19-21), pois a infidelidade de nossa parte é o que pode nos afastar de Deus (Hb 3:12; Is 59:1,2,12,13). O Livro Sagrado ensina também que a fé vem pelo ouvir (Rm 10:17), então não é por uma predestinação imposta. A ordem do Senhor permanece até o fim dizendo que Ele está à porta, batendo (Ap 3:20) e não pronto para arromba-la e ainda manda os fiéis guardarem o que têm para que sua coroa não seja roubada (Ap 3:11). E no seu final ainda diz: “e quem quiser tome de graça da água da vida”(Ap 22:17); ou seja, é de graça sim, mas tem que querer.




[1]Presciência: Conhecimento do futuro.
[2]Hebreu: Esse era um dos nomes dados ao povo de Israel. Esse nome vem da raiz ‘a-vár’, que significa “passar, transitar, atravessar, cruzar”. Esse nome denota viadantes, ou viajantes, aqueles que ‘passam adiante’. Isto porque os israelitas por um tempo realmente levaram uma vida nômade.
[3]Parábola: Origináda do grego parabole, significa narrativa curta ou apólogo, muitas vezes erroneamente definida também como fábula. Sua característica é ser protagonizada por seres humanos e possuir sempre uma razão moral que pode ser tanto implícita como explícita. Ao longo dos tempos vem sendo utilizada para ilustrar lições de ética por vias simbólicas ou indiretas. Narração figurativa na qual, por meio de comparação, o conjunto dos elementos evoca outras realidades, tanto fantásticas, quando reais. Eram as histórias geralmente extraídas da vida cotidiana utilizadas por Jesus Cristo para ensinar aos seus discípulos. Segundo Marcos 4:11-12, eram utilizadas por Jesus para que somente seus discípulos as entendessem plenamente. Este gênero já era utilizado por muitos dos antigos profetas. Na Bíblia, encontramos 50 parábolas; dessas, 40 foram contadas por Jesus.
[4]Edomita: Nascido no povo de Edom (um dos nomes de Esaú, como lembrança de ter vendido o seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas (Gn 25:30). País dos descendentes de Esaú (Nm 20:18-21), que ficava ao sul do mar Morto. Atualmente, esse território pertence a Jordânia).